As cigarras nossas de cada dia

Hoje vamos estrear uma nova página no nosso blog: na cachola! Ela é a nossa versão da famosa pasta de assuntos aleatórios que todos nós temos, né? Nela vamos colocar reflexões, notícias interessantes, enfim, aquilo que estiver passando pela nossa cachola. Esperamos que gostem!

Acabou que a temática veio a calhar, pois a chegada da época chuvosa, uma nova estação, aqui em Brasília tem uma característica marcante: o canto das cigarras… canto para uns, berros para outros rsrs. A relação com esses insetos varia de pessoa para pessoa, é de amor ou ódio, dependendo da proximidade então, nem se fala. Muito poético mesmo perceber a mudança da estação seca para a estação chuvosa… até a cigarra entrar dentro de casa, pousar em você, ficar se debatendo no vidro da janela porque não consegue sair… aí a coisa muda.

Tenho aprendido a lidar com elas cada vez mais, mas vocês hão de concordar que esse bichinho, quando percebe que está em perigo, entra em pânico e berra igual uma criança! Já perceberam? Tenta pegar uma cigarra que entrou em casa para liberá-la na natureza… a coitada berra tanto que chega a dar dó!

De manhã elas começam sua cantoria de forma uníssona e num crescendo; um alarme perfeito para os ouvidos mais sensíveis e para aqueles de sono leve. Se você estiver vendo um vídeo, ouvindo uma música ou qualquer coisa do gênero, pode ser que precise fechar as janelas (se o calor permitir) ou usar um fone.

Sabia que existem mais de 1500 espécies de cigarra!? Tem de todas as cores e tamanhos! Apesar disso, quem já tentou achar uma cigarra num tronco de árvore sabe o quão difícil é, e aalegria que dá quando você finalmente consegue achar…hehhe…

Hoje, as cigarras me inspiraram a fazer esse post…Fiquei achando que elas mereciam um pouco de atenção da minha parte. Apesar do leve pavor que podem causar, as cigarras são insetos bem bonitos. Separei algumas imagens de objetos, estampas e desenhos inspirados nesses bichinhos tão controversos.

Tem mais lá no Pinterest, olha aqui que graça!

Uma das primeiras coisas que vêm à mente quando falamos em cigarra é a fábula A cigarra e a formiga, né? Existem algumas versões feitas por escritores brasileiros como Monteiro Lobato e Millôr Fernandes (textos extraídos daqui):

A formiga boa
Houve uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé dum formigueiro. Só parava quando cansadinha; e seu divertimento então era observar as formigas na eterna faina de abastecer as tulhas. Mas o bom tempo afinal passou e vieram as chuvas. Os animais todos, arrepiados, passavam o dia cochilando nas tocas. A pobre cigarra, sem abrigo em seu galhinho seco e metida em grandes apuros, deliberou socorrer-se de alguém. Manquitolando, com uma asa a arrastar, lá se dirigiu para o formigueiro. Bateu – tique, tique, tique…

Aparece uma formiga, friorenta, embrulhada num xalinho de paina.

–Que quer? – perguntou, examinando a triste mendiga suja de lama e a tossir.

– Venho em busca de um agasalho. O mau tempo não cessa e eu…

A formiga olhou-a de alto a baixo.

– E o que fez durante o bom tempo, que não construiu sua casa?

A pobre cigarra, toda tremendo, respondeu depois de um acesso de tosse:

– Eu cantava, bem sabe…

– Ah! … – exclamou a formiga recordando-se. Era você então quem cantava nessa árvore enquanto nós labutávamos para encher as tulhas?

– Isso mesmo, era eu…

– Pois entre, amiguinha! Nunca poderemos esquecer as boas horas que sua cantoria nos proporcionou. Aquele chiado nos distraía e aliviava o trabalho. Dizíamos sempre: que felicidade ter como vizinha tão gentil cantora! Entre, amiga, que aqui terá cama e mesa durante todo o mau tempo. A cigarra entrou, sarou da tosse e voltou a ser a alegre cantora dos dias de sol. 

LOBATO, Monteiro.Fábulas. São Paulo: Brasiliense, 1982.

A cigarra e a formiga
Cantava a Cigarra
Em dós sustenidos
Quando ouviu os gemidos
Da Formiga,
Que, bufando e suando,
Ali, num atalho,
Com gestos precisos
Empurrava o trabalho:
Folhas mortas, insetos vivos.
Ao ver a Cigarra
Assim, festiva,
A Formiga perdeu a esportiva:
“Canta, canta, salafrária,
E não cuida da espiral inflacionária!
No inverno,
Quando aumentar a recessão maldita,
Você, faminta e aflita,
Cansada, suja, humilde, morta,
Virá pechinchar à minha porta.
E, na hora em que subirem
As tarifas energéticas,
Verá que minhas palavras eram proféticas.
Aí, acabado o verão,
Lá em cima o preço do feijão,
Você apelará pra formiguinha.
Mas eu estarei na minha
E não te darei sequer
Uma tragada de fumaça!
Ouvindo a ameaça,
A Cigarra riu, superior,
E disse com seu ar provocador:
“Você está por fora,
Ultrapassada sofredora.
Hoje eu sou em videocassete
Uma reprodutora!
Chegado o inverno,
Continuarei cantando
– sem ir lá –
No Rio,
São Paulo
Ou Ceará.
Rica!
E você continuará aqui
Comendo bolo de titica.
O que você ganha num ano
Eu ganho num instante
Cantando a Coca,
O sabãozão gigante,
O edifício novo
E o desodorante.
E posso viver com calma
Pois canto só pra multinacionalma”

FERNANDES, Millôr. Veja.com 2009 – ed.2120.

Super atual essa última né?! rsrs… A fábula de La Fontaine, e sua moral, foi levada muito a sério por muitas gerações, acho que é hora de dar uma equilibrada nessa história toda e pensar em outras versões… cada um pode fazer a sua 😉

A Cigarra 9

Uma popular revista brasiliera do início do século XX era A Cigarra, lançada em 1914. Com edição quinzenal, refletia o comportamento pomposo da elite paulistana da época com fotografias, ilustrações, jogos e textos assinados por escritores como Oswald de Andrade, Monteiro Lobato e Olavo Bilac. As mulheres eram destaque na capa e em seções como Vida Doméstica, entre notícias sobre bailes, saraus e espetáculos da cidade de São Paulo.  Após a morte de Gelásio Pimenta, seu fundador, em 1924, passou a ser editada pela Editora da revista O Cruzeiro. Exemplares publicados até 1948 estão disponíveis para consulta no site do Arquivo Público do Estado de São Paulo.

Bom gente, esse foi o registro do que eu tinha na cachola hoje… a cigarra é um símbolo bastante presente! Vamos parar um pouco e relembrar… se você tiver algum comentário é só postar! bj!

 

 

Gostou? Então compartilhe...Share on Facebook51Pin on Pinterest13Tweet about this on TwitterShare on Google+0Share on Yummly0Email this to someonePrint this page

Comentários

comentários